domingo, 9 de março de 2014

O Três - Final





            

            Fernando correu os dedos longos por meus seios. Com o olhar injetado de desejo, aceitou:
            _ Por favor...
            Henri é canhoto. O que o torna, sem dúvida, duas vezes mais sexy... Com a borda do garfo, cortou com precisão três pedaços de uma fatia de mamão formosa. Espetou um dos pedaços e colocou-o na minha boca.
            Imediatamente Fernando abriu a boca sobre a minha, prensando a fruta entre nossas línguas... alimentando-se de mim... e comigo.  Enquanto me beijava, misturando mamão, línguas e saliva, Henri nos observava. Escorado calmamente na mesa, à minha esquerda... degustando outro pedaço de mamão.
            Fernando interrompeu o beijo. Afastou-se de mim quase sem fôlego. E me ofereceu à Henri. Diferente da primeira vez em que nos beijamos, ele não se acercou de uma vez só. Primeiro passeou o dedo por minha boca. Percorreu o caminho do suco que escorria pelo queixo e pelo pescoço. Por fim, lambeu o rastro do mamão de baixo para cima... e me beijou, efetuando a simbiose comigo.
            Enquanto Henri me beijava, Fernando se serviu de um pote de geléia de damasco. Besuntou generosas porções em cada um dos meus seios. Depois abocanhou, sem pena, o seio direito.
            Era a primeira vez que Fernando mamava em mim e fazia isso diferente da forma com que beijava. Se o seu beijo era delicado, sua boca me sugava com intensidade, como a sorver não apenas a geléia de damasco, mas um leite imaginário que talvez eu produzisse.
            Sua mão também corria por todas as extensões palpáveis do meu corpo, se encontrando, ininterruptamente, com a de Henri. Eu me desmanchava sob eles... sendo beijada por um... alimentando o outro... acariciada pelos dois...
            Henri separou a boca da minha. Mas desceu a língua por meu queixo... pescoço... colo... até o seio que Fernando preparara para ele.
            Arquejei. Henri mamava como beijava. Eu já sabia. Mas não sabia o quanto era devastadora a sensação de oferecer os seios aos dois! Enrodilhei meus dedos em seus cabelos e gemi... e gemi...
            _ Hum...! Hum... Hum...
            Era uma tortura. Deliciosa tortura, ser desfrutada daquela forma.
            Mas, Henri subiu a língua até meu pescoço. Pegou um pequeno bule de louça e dançou-o diante dos meus olhos. Com aquele sorriso de parar o trânsito, disse baixinho:
            _ Leite...
            Fernando ergueu o rosto para observar o gesto de Henri e lhe devolveu o sorriso. Deixou meu seio. Com um movimento muito leve, prensou firmemente minhas coxas, uma na outra. Logo depois se sentou à minha direita. Vagarosamente, Henri despejou o leite sobre meu colo. O líquido foi escorrendo até a barriga e dali, compôs uma pequena poça branca no vão formado entre meu púbis e as coxas cerradas. Fernando abaixou a cabeça... e para minha absoluta diversão... começou a lamber o leite...!
            Henri pegou outra louça. Desta vez um pote transparente. Da mesma forma agitou-o levemente diante dos meus olhos e com outro sorriso, me informou:
            _ Granola!
            Enquanto Fernando quase “ronronava” bebendo do leite que se ajuntara entre minhas coxas, Henri encheu a mão de granola e salpicou-a sobre mim. Uma profusão de sementes grudou no meu corpo. Outro tanto, junto com as uvas passa e castanhas de caju, foi se agregar ao leite de Fernando.
            Henri também me lambeu. Lambeu e comeu criteriosamente todo o leite com granola que havia espalhado, até se encontrar com Fernando e dividir com ele o que havia entre minhas coxas...
            Fechei os olhos. Apoiei minhas mãos na mesa. Quando o leite com granola acabou, meus gatos, meus príncipes... escancararam minhas coxas e se lançaram juntos à tarefa gloriosa de lamber minha buceta. A buceta inteira...!
            Impossível saber qual das línguas acariciava minha virilha... explorava o interior dos grandes lábios.... se encontrava com a outra na altura do grelo. Juntas, em beijos e lambidas ascendentes, sempre ascendentes...
            Desnecessário dizer que eu estava completamente atarantada...! Meus pensamentos haviam se evadido do cérebro e qual bandidos em fuga, tomado rumo ignorado. Eu estava oca! Sem presente, passado e com um futuro incerto. Minha única certeza era que aquilo.... era bom demais!
            Por quanto tempo eu ficaria ali, entregue à carícia daquelas línguas destras, mais competentes e instruídas que qualquer cientista com título de PhD?! Bom... por mim, eu ficaria a vida inteira!
            As criaturas do Olimpo, porém, tinham planos outros. Igualmente sensacionais. Mas, na surpresa da carícia interrompida, reagi com um gemido de decepção.
            _ Por quê...?!
            Fernando e Henri se ergueram quase ao mesmo tempo. Cada um passou um braço por minha cintura. Henri estava rindo de mim, da minha expressão emburrada. Lambeu meu pescoço... mordeu o lóbulo da minha orelha e sussurrou em meu ouvido:
            _ Porque você é muito bandida!
            Suspirei. Continuei fazendo a linha “menina mimada”, esticando um beicinho, em busca da aprovação de Fernando:
            _ Ouviu isso? Você ouviu o que ele disse que eu sou?!
            Fernando voltou o rosto sorridente para Henri.
            _ O que você disse que ela é...?
            Henri se inclinou na direção de Fernando. Sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Fernando riu. E ainda rindo, repetiu o gesto de Henri. Veio para mim pelo lado direito. Bafejou um ar quente em meu ouvido e sussurrou também:
            _ Bandida...
            Henri continuou, no ouvido esquerdo:
            _ Safada..!.
            E Fernando:
            _ Perversa!
            Com uma lentidão absurda, o indicador de Fernando começou a massagear meu grelo. Docemente... com movimentos circulares muito delicados, que talvez nem eu mesma conseguiria fazer igual... Ato contínuo, Henri enfiou o dedo anular na minha vagina, com a palma da mão esquerda virada para cima. Achei que iria me liquefazer em milhões de pedacinhos, como se eu fosse feita de mercúrio...
            Henri enfiou o dedo até alcançar uma saliência esponjosa, existente não sei exatamente onde ou em qual bendita marcação das horas...! O que eu sei é que assim que ele pressionou esse ponto, foi como se acionasse o botão on e me ligasse! Eu arrepiei... da cabeça aos pés!
            Henri e Fernando se entreolharam. Bastou o olhar cúmplice para que Henri friccionasse a minha vagina vertiginosamente. Quase morri!
            Eles me submeteram a um mar de estímulos avassaladores: de um lado, a doçura dos movimentos que Fernando imprimia em meu grelo... de outro, a agressividade das estocadas calculadas de Henri... por fim, os sussurros em meus ouvidos, através dos quais eles me recriminavam por minha recusa anterior em transar com os dois:
            _ Maldosa...
            _ Bandida...
            _ Safada...
            _ Desalmada...
            _ Desnaturada...
            _ Ruim...
            Antes que esgotassem todo seu arsenal de sinônimos, eu gritei como uma desvalida, completamente solidária a todas as putas que haviam passado por ali! Só naquele momento eu entendi porque elas gritavam tanto!
            _ Ah...! Ah...! Ah...!
            _ Fala... ! _ Fernando ordenou em meu ouvido. _ Fala! Eu quero ouvir, Anaiz! Fala!
            _ Eu tô gozando! Meu deus do céu, eu tô gozando...! _ gritei.
            Um rio fino de água escorria por minhas pernas e entre as mãos dos dois. E não parava! Porque eles não paravam! Henri não interrompia os movimentos na minha vagina... Fernando continuava a massagear meu grelo... E os dois me beijavam, me lambiam e me mordiam, tão desordenados quanto eu. Eu só parei de gozar quando eles assim o desejaram...!
            Fernando foi o primeiro a se afastar. Por brevíssimos minutos. Logo, com a destreza de um crupiê, perfilou sobre a mesa uma pequena coleção de camisinhas. Assim que Fernando enfileirou os preservativos, Henri parou de me meter com o dedo. Olhou-me nos olhos e, muito sério, perguntou:
            _ Você quer água, Anaiz?
            Meneei a cabeça. Estava sem fôlego, cansada, mas recusei a água. Fernando chegou bem perto. Passou a mão em meus cabelos e me aplicou um beijinho no rosto.
            _ Aceite, amor... Eu pego pra você.
            Assenti levemente com a cabeça e concordei. Henri e eu observamos Fernando pegar a água do filtro e estender o copo para mim. Enquanto eu bebia, permanecia com a cabeça oca. Não entendia direito a deferência de Henri... por que me oferecer água...? Até que... ele disse:
            _ Você faz ideia, Anaiz, do quanto eu chorei por você...?
            Fernando estava ao lado dele, à minha direita. Passou o braço pelos ombros do amante e confirmou sua confissão:  
            _ Sou testemunha. _ afirmou com aquele vozeirão encorpado, que me fazia perder o juízo. _ Este homem sofreu como um cão!
            Meus olhos foram de um para o outro e deles para a coleção de preservativos expostos na mesa. Voltei os olhos para Henri. Por um breve segundo, fiquei apreensiva. Mas, ao olhar no fundo daqueles olhos castanhos, vislumbrei um relampejo de divertimento. E fiz a única coisa que eu podia fazer: embarcar na brincadeira...!
            Voltei os olhos para Fernando.
            _ E você? Também sofreu?
            _ Muito. Você realmente não faz ideia do quanto Henri e eu sofremos por você!
            Eu queria por demais perguntar qual era o fundo de verdade daquelas afirmações. Até porque, no que me dizia respeito, eu quase havia dessorado por causa deles! Acontece que se eu perguntasse qualquer coisa nesse sentido iria estragar a brincadeira dos meninos... E, combinemos, não tinha a menor graça discutir a relação naquele momento!
            _ Me perdoem...! _ sussurrei. E não era, apenas, porque estávamos brincando. De fato eu pedia perdão aos dois! _ Por favor...! Me perdoem...!
            Tenho certeza que eles entenderam. Sei disso porque desviaram levemente os olhos. Mas quando voltaram a me encarar, tinham decidido deixar o passado para trás. Henri foi o primeiro a nos reconduzir ao presente. E com aquele sorriso de arrasar quarteirão, sugeriu:
            _ Por que você não se ajoelha? Hum?
            Assenti com a cabeça.
            Bebi água. O suficiente para garantir que a boca não ficasse seca e produzisse muita saliva. Terminei de despir o camisão xadrez, todo melado de leite, mamão, granola e geléia. Desci da mesa.
            Primeiro me aproximei de Henri. Enfiei os dedos no cós da sua cueca. Abaixei a peça delicadamente, para deixar exposto um pau grosso, grande, duro e... muito bonito!
            Aproximei-me de Fernando. Meu deus celta estava com a respiração levemente entrecortada. Quando baixei os olhos, não me espantei ao perceber que bem uns seis centímetros de pica saltavam da cueca boxer branca... Sorri. Eu já havia me esfregado naquele pau enorme. E... tão devagar quanto havia feito com Henri, fui baixando a cueca de Fernando, até o mastro magnífico balançar, em riste, à minha frente.
            Meu próximo gesto parecia óbvio. Tanto que Henri e Fernando, ao mesmo tempo, molharam os lábios com a língua, na expectativa de que eu me abaixasse de uma vez. No entanto, fitei meus queridos e perguntei:
            _ Você se esmera tanto para fazer o café, Henri... Será que ainda está quente?
            Henri engoliu em seco. À breve sugestão, seu pau tremeu brevemente.
            _ Está. Está sim. _ ele se apressou em garantir.
            _ Pode servir uma xícara pra mim, Fernando... ? Por favor?
            Fui me abaixando... Fiquei exatamente na frente de Henri. Quando Fernando me estendeu uma xícara fumegante de café, ergui o rosto e sorri para os dois. Eles acompanhavam atentamente eu levar a xícara aos lábios... beber o café quente... devolver a xícara para Fernando... e abrir a boca sobre o pau de Henri.
            Quando o calor da minha boca, acrescido do calor do café, envolveu a cabeçorra daquela pica, Henri inclinou a bacia para frente, juntou as mãos enormes na minha cabeça e enfiou o pau inteiro na minha boca, até a metade da minha garganta.
            _ Caralho! _ ele espasmou num palavrão.
            Produzi toda a saliva que pude. Voltei a cabeça, para evitar o sufocamento e não dei trégua a Henri. Mantive o pau na minha boca e chupei com vontade, pressionando minha língua e as paredes da minha boca, movendo minha cabeça para frente e para trás.
            Fernando ficou atrás de mim. Delicadamente puxou meus cabelos para cima, de modo que ele e Henri pudessem me contemplar executando a arte milenar do felatio.
            Henri se apoiou na mesa. Chegou a inclinar os joelhos um pouco para baixo.
            _ Caralho... _ voltou a sussurrar. _ Caralho, Fernando, precisa ver isso...!
            Henri retirou o pau da minha boca. Eu olhei para ele, e perguntei:
            _ Você me perdoa...?
            _ Perdôo, anjo, perdôo! _ respondeu com a voz abafada, fruto do esforço de evitar o gozo. _ Pede pro Fernando também, pede... _ precipitou-se para a mesa e serviu outro café. Desta vez foi a mão esquerda de um Henri meio trôpego que veio me oferecer outra xícara de café fumegante. _ Aqui, anjo... bebe. Bebe pro Fernando...
            Bebi.
            Bebi e segurei a pica de Fernando com as duas mãos. Fiz um esforço industrial para engolir a maior quantidade possível de rola! Quando cheguei ao limite, movimentei os músculos da garganta, simulando uma deglutição obviamente impossível.    Fernando também arriou as pernas. Precisou se segurar na borda da mesa, olhos fechados, respiração profunda...
            _ Meu...deus...do céu... _ ele gemeu.
            Gemeu tão bonitinho que tive vontade de engoli-lo novamente, só para que ele gemesse de novo...! Mas Fernando segurou meus cabelos e socou vigorosamente o pau na minha boca. Comprimi meus lábios e minha língua, procurando dificultar seus movimentos. Eu sabia que a pressão quente iria aumentar o prazer que ele sentia ao arremeter. Mas aquilo parecia enlouquecê-lo...! Fernando gemia, arquejava, dividia-se entre chamar os anjos e dizer palavrões num banquete exótico de palavras:
            _ Nossa Senhora... hum... puta que pariu... ai... meu deus...
            Henri acompanhava a felação, ao meu lado, acariciando meus cabelos, olhos atentos à minha boca e ao pau de Fernando.
            _ Põe ela na mesa, Henri...! _ Fernando, de repente, ordenou. E eu, confesso, tremi. Ele iria atolar aquele mastro em mim, comigo deitada na mesa, como se eu fosse um faisão!
            Dito e feito.
            Henri me tomou nos braços. Enquanto ele me deitava na mesa, Fernando pegou um dos preservativos. Rasgou a embalagem com os dentes e desenrolou a camisinha na pica, com uma destreza impressionante. O próprio Henri flexionou meus joelhos e apoiou meus pés na borda. Quando me julgou pronta, inclinou-se sobre mim, beijou carinhosamente minha boca e sussurrou:
            _ Você vai gostar.
            Henri se afastou. Fernando tomou o lugar dele. Colocou-se entre minhas pernas, encostou a cabeça da pica na entrada da minha buceta e abraçou minhas coxas. Eu respirei fundo. E lá veio Fernando, me devassando, me abrindo, me rompendo. Me fodendo como o mais viril de todos os celtas!
            Metia vigorosamente. Sem dó. Se entrava a pica inteira ou não, eu não sei! Sei apenas que ele fodia olhando nos meus olhos, metendo o mais fundo que podia, me deixando desnorteada. Chacoalhando embaixo dele, eu balbuciava meu prazer na forma de pedidos de perdão:
            _ Me perdoe... me perdoe, Fernando, me perdoe...
            Fernando saiu de dentro de mim. Imediatamente Henri ficou em seu lugar. Em frações de segundos, ele enlaçou minhas coxas e socou violentamente o pau grosso na minha buceta.
            Eu arquejei. Eu gritei. Mas o som do grito se perdeu na boca de Fernando. Ele estava à minha direita, inclinado sobre a mesa, misturando a língua na minha.
            Beijei-o. Enlacei seu pescoço, enfiei os dedos em seus cabelos. Enquanto Henri me metia... sem descanso.
            _ Me perdoa...? _ eu insistia naquilo. Chegava a ser ridículo, porque a pressão que Henri exercia sobre mim era alucinante! Eu me agarrava a um resto de lucidez de pura teimosia, porque queria a redenção dos dois! Fernando pareceu entender minha aflição. Depositou um beijinho cálido na minha boca e sussurrou:
            _ Claro que sim, meu amor. Nós dois já te perdoamos! Agora relaxa... Só goza, ta bom?
            Devolvi o beijinho com um sorriso de alívio. Bastou voltar um pouquinho a cabeça, para encontrar meus olhos com os de Henri. Ele sorria para nós. Para mim e para Fernando.
            _ Me beija? _ eu pedi.
            Henri cobriu minha boca com a dele. Também enlacei seu pescoço. Corri os dedos pelos cabelos escuros. Enquanto ele me fodia, com a agressividade que lhe era peculiar, mais uma vez procurei a boca de Fernando. E nos beijamos os três.
            Fechei os olhos. Abracei meus deuses, meus príncipes. Deixei que eles se revezassem na brincadeira de meter com força, um substituindo rapidamente o outro na iminência do gozo, indo tomar seu lugar em minhas entranhas e em minha boca.
            O prazer que me proporcionavam não tinha limite! Perdi a conta das vezes em que me solidarizei novamente com as putas. Com todas as putas que eles haviam comido! Era impossível não gritar, não se desmanchar, não se descabelar com aqueles homens metendo ininterruptamente! Eu gritei. Desmanchei. Descabelei. E encharquei a toalha de mesa...
            Quando eu jazi lassa, com todos os músculos do corpo absurdamente moles, eles pararam de me foder. Henri saiu de mim, mansamente. Estava encharcado de suor, com a pele morena luzidia, tornando-o quase uma estátua de cobre. Ele passou a mão esquerda nos cabelos e respirou fundo.
            _ Põe ela de quatro, Fernando. _ ordenou.
            Eu estava lassa. Com as pernas trêmulas e dormentes. Mas bastou aquilo para que um arrepio insidioso cruzasse meu corpo.
            Henri se afastou o suficiente para Fernando me tomar nos braços. Tão suado quanto Henri, ele beijou minha boca e pediu:
            _ Venha aqui, amor.
            Assenti.
            Fernando me remontou na posição que eles desejavam: apoiou meus joelhos sobre duas cadeiras almofadadas. Curvou meu peito sobre a mesa posta. Cruzou meus braços sobre meu queixo. Ainda teve a delicadeza de apoiar meu rosto sobre um pano de prato dobrado. Quando encerrou todas estas operações, Henri apoiou os antebraços na mesa e ficou me olhando. Com as costas da mão esquerda, empurrou um pote de margarina até estacioná-lo diante dos meus olhos. Ergueu a sobrancelha e me dirigiu uma piscadinha marota. Eu sorri... lânguida. Estava prestes a me transmutar numa Maria Schneider bem menos reticente, com duas versões atualizadas de Marlon Brandon repaginando comigo a cena mais picante de O último tango em Paris.
            Henri apanhou uma colher entre os talheres da mesa. Abriu o pote de margarina light sem sal. Correu o dorso da colher pelo creme e ajuntou uma porção generosa de manteiga. Fez tudo isso olhando para mim, com uma cara de provocar tesão até no Colosso de Rhodes! Não bastasse, apontou para a manteiga e disse:
            _ Não se preocupe, anjo. Tem ômega três, ta?
            Eu comecei a rir. Fernando também. Mas Henri nem se lixou. Jogou aquele despautério de margarina sobre a minha bunda, exatamente no sulco entre as nádegas. Com a ajuda de Fernando besuntou meu cu de manteiga. Os dois ainda se divertiram espalhando manteiga por minha bunda, lambendo minhas costas e massageando meu cu com os dedos.
            Por fim, Henri me enrabou.
            Era de se esperar que fosse ele. E do jeito dele. Colocou a cabeçorra do pau na entrada e forçou. Não me arrombou nem foi violento. Mas também não foi um primor de delicadeza! Enfiava o pau, abrindo meus espaços passo a passo. Mas dava passadas largas, sem retroceder sequer um centímetro. Metia um tanto. Parava. Esperava. Depois empurrava uma porção ainda maior de pica.
            Fernando procurava me relaxar. Havia se inclinando na mesa e pousado a boca em minha orelha. Enquanto sussurrava palavras de carinho, passeava os dedos cheios de margarina com ômega três pela curva da minha espinha:
            _ Está doendo agora, amor, mas depois vai ser gostoso... você vai ver. Hum? Relaxa, isso... Me dá um beijo, aqui... vem...
            Henri atolou o pau no meu cu. Enfiou tudo o que ainda havia para meter e se deitou sobre mim. Envolveu meus braços com aquelas mãos enormes e ficou quietinho, esperando que eu parasse de me contorcer e de xingá-lo:
            _ Henri, seu cretino, filho da puta! Doeu!
            Ele e Fernando estavam com a boca próxima ao meu ouvido. Quando parou de doer, Henri começou a meter bem devagarinho. E os dois passaram a sussurrar:
            _ Transa com a gente, Anaiz... _ Henri pediu.
            _ Me deixa te comer também, amor... _ era Fernando. _ Vamos ser carinhosos...
            _ Mentira! _ eu me rebelei. _ Mentira dos dois!
            Henri deu uma risadinha.
            _ Deixa, anjo... _ insistiu dengoso _ Deixa...
            _ Você não quer, amor? Nós dois...? _ Fernando me perguntou, mortificado!
            Bom... é impossível resistir a aquele homem loiro, lindo, de olhos verdes maravilhosos, me pedindo um biscoito!
            _ Claro que eu quero, Fernando...! Mas...
            Nem mas ou meio mas. Eu não tive sequer como negociar. Henri firmou os pés no chão. Enlaçou meus ombros com as mãos em gancho e se ergueu junto comigo. Em dois segundos ele apoiou os quadris na mesa. E eu fiquei por cima, sentada sobre ele, atolada até a alma com aquele pau no cu. Um frio percorreu minha espinha de ponta a ponta.
            _ Henri... eu te odeio! _ eu nem consegui esbravejar. Apenas engasguei o impropério, dividida entre a dor lancinante e o prazer inusitado que aquela posição provocava.
            _ Odeia nada! _ ele provocou, rindo de mim. _ Você me adora!
            Henri sustinha minhas coxas com as mãos. Até que Fernando se posicionou na minha frente e segurou-as, apoiando-as em seus antebraços.
            _ E eu... _ Fernando disse baixinho. _ Adoro vocês dois!
            Henri e eu sorrimos para ele. Enlacei seu pescoço. Henri segurou seu pau e ajudou-o a entrar na minha buceta. Cruzei minhas pernas sobre seus quadris. Quando Fernando e Henri ocuparam definitivamente meus espaços, eu gemi. Não vou negar que aquilo doeu horrores! Mas... passado o impacto... quando eles começaram a se movimentar com muita leveza, me estocando ao mesmo tempo e na mesma sequência...Meu deus! Nunca, em toda a minha vida, eu havia sentido nada nem remotamente semelhante!
            Uma onda vibratória ia da minha espinha até a minha nuca, com as estocadas de Henri. Uma pressão se intensificava no interior da minha vagina com as investidas de Fernando. E os dois, Henri e Fernando tinham a oportunidade do pau de um se esfregar no pau do outro, através de mim. A três eles transavam comigo, eu com eles e eles entre si. Nos beijávamos. Nos abraçávamos. Nos mordíamos. E gozávamos. Os três. Na mais perfeita de todas as sincronias.
            Passamos o domingo juntos. Tomamos banho juntos. Comemos. Dormimos. Juntos. Quando a noite chegou, dei pra eles de novo. Desta vez na cama, lá em cima, no quarto, de frente para a minha janela. O que era engraçado, porque eu tinha a impressão de que eu iria aparecer do outro lado a qualquer momento, para espiar.
            Dormi ali, com eles. Até amanhecer.
            Quando os primeiros raios da manhã anunciaram a chegada do dia, eu estava entre eles. Acordei com Fernando se esfregando na minha bunda. E Henri no meu ventre. Dei pra eles, outra vez.
            Mas era segunda feira. Como dizia uma velha amiga da faculdade: dia de preto na folhinha! E dia de preto na folhinha significava enfrentar a realidade do dia a dia e dos resultados das nossas escolhas.
            Corri para minha casa usando uma camiseta e uma bermuda emprestadas. Confesso que não procurei meus chinelinhos do Mickey.
            Quando ouvi o barulho da caminhonete deles, meu coração deu um salto. Meus queridos também estavam indo para o trabalho e buzinavam com rara histeria, bem em frente da minha casa. Antes que toda a vizinhança acordasse e chamasse a polícia, corri até a janela da sala. Estiquei a cabeça para fora, para ver Fernando e Henri gritarem:
            _ Bom dia!!!
            _ Bom dia! _ respondi de volta, mais feliz e satisfeita que Julieta na cena do balcão.
            Eles se foram pela curva da esquina e eu os segui com os olhos. Lindos... Perfeitos como dois poemas...
            Passei o dia todo na Universidade. Dei aulas. Orientei alunos. Participei de reunião de departamento. Quando meu dia, finalmente parecia ter chegado ao fim e o rolo compressor da vida acadêmica me havia dado um tempo, três alunas do curso de Pedagogia conseguiram me alcançar.
            Eu queria morrer. Ou enforcá-las. Meu sonho dourado era pegar um taxi. Ir para minha casa. Tomar um banho. E, quem sabe...  namorar meus vizinhos. Mas as alunas teimavam em salvar a educação pública com um projeto de Iniciação Científica que, segundo entendi, só eu podia orientar!
            Elas falavam ininterruptamente e eu estava com uma dificuldade terrível para acompanhar! Foi quando, de repente, uma delas levou a mão ao peito e disse com os olhos esbugalhados:
            _ Meu deus!
            Fiquei com medo de a garota estar enfartando. Mas ela esticava os olhos para além dos meus ombros, aparentemente vendo alguma coisa incrível ou aterradora. As outras duas acompanharam seu olhar e também arregalaram os olhos.
            _ Senhora da Abadia!
            _ Que fo..._ eu me voltei. E dei razão. 
            Eles estavam no estacionamento. Henri estava escorado na caminhonete imunda, trajado com um jeans descorado, camisa xadrez de vermelho, um par de botas e os óculos de aviador. Fernando estava ao lado dele. Também vestido de jeans, camisa branca, botas para caminhada e os charmosos óculos de grau. Os dois estavam envolvidos numa conversa animada, esparramando sedução aos quatro ventos sem nem se darem conta daquilo. Eles estavam... lindos!
            Sorri embevecida. Meus vizinhos... perfeitos haviam ido me buscar!
            Quando me viram, acenaram alegremente. Uma das meninas perguntou:
            _ Professora, de deus, você conhece?!
            _ Claro... _ volteei para elas um olhar cheio de malícia e completei: _ São meus vizinhos!
            _ Jura?! _ outra  suspirou. _ Nossa, professora, apresenta!
            _ Até posso. Mas garanto pra você, querida, que a fruta que você gosta eles comem até o caroço!
            _ ...Como assim...? _ a terceira garota perguntou baixinho, já antevendo o desfecho.
            _ Eles são gays, meninas. São um casal. Sinto muito.
            _ Ah, não, professora, cê ta brincando! Esses dois homens lindos são gays?!
            _ Meu amor, o Rick Martin também é e não é menos bonito por isso! _ aproveitei a decepção das meninas, ajuntei minha pasta no peito e me despedi: _ Me procurem amanhã! Meus horários de atendimento estão afixados na porta da minha sala! Tenho que ir se não perco a carona!
            Desci as escadas, célere como uma lebre. Eles me receberam com aqueles sorrisos augustos. Magníficos. Impossíveis de tradução. Ganhei um selinho de Fernando. E outro de Henri. E já fui me aboletando no banco, me colocando entre os dois.
            Quando entraram, Henri voltou os olhos para as meninas, que permaneciam no alto da escada nos observando.
            _ Nossa, que caras de velório! O que você fez com aquelas três?! Reprovou logo no início do semestre?
            Fernando inclinou-se um pouco para ver as garotas. Já eu, nem voltei o rosto. Coloquei a mão direita na coxa de Fernando. A esquerda na coxa de Henri e disse a verdade:
            _ Eu só contei para elas que vocês são gays! Acho que elas ficaram tristinhas.
            Fernando e Henri desabaram numa risada debochada. Fernando perguntou:
            _ E por acaso você disse pra elas que a gente tem namorada?
            _ E que por acaso essa namorada é você?! _ Henri completou.
            Eu me sentia a rainha da cocada preta quando respondi:
            _ Mas é lógico que não! Vocês acham que eu sou doida de alertar a concorrência?! É ruim, hein?!
            Um por do sol, majestoso como meus vizinhos, se derramava sobre o dia quando nós três, juntos, voltamos para casa.       



quinta-feira, 6 de março de 2014

O Três - parte IV




         
  
                Desprezo. É o que se recebe quando se dá.
            Minha guerra de nervos não passara de um rompante de desejos reprimidos. Dos meus desejos reprimidos. Meus desejos que agora irrompiam como lava, a cada desvio de olhar, a cada cortina fechada, a cada ausência dupla.
            Meus vizinhos não deixavam mais a janela escancarada para a indiscrição dos meus olhos. Raramente esbarravam comigo em qualquer lugar da cidade. Quando isso acontecia, sutilmente se evadiam. A casa, ao lado, parecia inabitada. Sexta feira, à noite, eles desapareciam. Fiquei sozinha, entregue ao remorso, às lágrimas e à insatisfação das minhas vontades. 
            Quando finalmente os vi, espiei-os através de uma fresta da minha janela fechada. Observei-os sorrateira como um bandido, pois não suportava mais a vontade de admirá-los, de lambê-los com os olhos da minha imaginação...
            Eu quis acreditar, com todas as minhas forças, que eles se beijavam para mim. Que Henri corria as mãos pelos cabelos de Fernando, com a urgência e a passionalidade que lhe eram características, porque o amava, sim... Mas também para que eu me deleitasse com as promessas que o gesto continha. Eu quis acreditar que compunham esculturas eróticas diante da janela, exclusivamente para que eu me derretesse de vontade de me juntar a eles e religá-los através do meu próprio corpo. Eu quis acreditar, do fundo da alma, que Henri me percebeu. Que sentiu minha presença atrás da janela e que, por isso, ergueu o rosto em minha direção.
            No suspense do segundo em transe, ele disse algo para Fernando. E seja lá o que disse, falou com tanta dor, que duas grossas lágrimas escaparam de seus olhos. Fernando encostou a testa em seu pescoço. Beijou suas costas carinhosamente. E num único gesto, fechou a janela.
          Eu me joguei na cama, em prantos.
         Chorei tanto, mas tanto, que achei que iria desidratar. Entreguei-me à autocomiseração, à piedade, a um sem fim de justificativas, que foram das mais elaboradas às mais abjetas. Não havia paliativo para mim. Eu tinha sido covarde. Eu jogara com eles tanto quanto jogaram comigo. A diferença é que jamais fingiram não ser um casal. Como também jamais fingiram que o desejo por mim não perpassava a relação dos dois. Eu, sim, havia sido cínica, como Henri me acusara. Cínica e dissimulada. Porque eu era louca por eles. Pelos dois. Mas não admitia.
       Sábado à noite. Quase nove horas. Entregue às lágrimas, dividida entre a autoindulgência e a punição, delineei o som inconfundível do Bon Jovi. Meu estômago esfriou.
       Caí ainda mais fundo no poço da miséria humana. Amarguei de ciúmes, pois aquilo só podia significar uma coisa: mulher. Meus vizinhos, meus príncipes, meus deuses, iriam, de novo, transar com uma mulher que não era eu!
            Em mais um gesto masoquista fiz questão de descer e ficar na varanda.
            A garota chegou pouco depois das nove. Desta vez veio de táxi. Mas não era a mesma. Não soube se senti alívio_ por não terem criado vínculo com a outra_ ou se senti inveja da beleza estonteante da loira que saiu do carro. Olhando para a mulher que, como Henri, não andava, ondulava, me permiti mais minutos de autocomiseração  Foi o próprio Henri que abriu a porta. Só de jeans, com parte da cueca branca aparecendo acima do cós da calça... Sorriu para a moça. Desceu as mãos enormes em sua bunda... Puxou-a para si... e beijou-a na boca ali mesmo, na porta da casa dele.
            Eu quis morrer! Mas... pior que o beijo... pior do que assisti-lo se esfregar com outra... pior que tudo isso, foi perceber que Henri estava se vingando.
       Não precisou muito para entender. No meio do beijo ele abriu os olhos. E olhou diretamente para mim! Quando acabou, deu um tabefe carinhoso na bunda da loira e afastou o corpo para que ela entrasse. Assim que a moça entrou, Henri voltou a cabeça na minha direção. E riu. Não o sorriso augusto, mais bonito e perfeito que a nona sinfonia. Ele dardejou em minha direção um riso cruel. Era uma risada tão atroz que um medo profético se instalou em meu estômago.
            Não tardei por esperar.
          Eles abaixaram a música. E dali mesmo, da minha varanda, eu pude ouvir os sons da luxúria atravessando as paredes e alcançando, certeiros, os meus ouvidos.
           Recebi os barulhos estoicamente. Eu merecia. Aquele desfecho era minha culpa, minha máxima culpa! Se eu estava sozinha e havia outra mulher em meu lugar, a culpa era exclusivamente minha.
       Mas não chorei. Me ergui bravamente e me arrastei para o quarto. Deixei-os “lá embaixo”, se divertindo com a loira, sem o incômodo da minha vigilância. Não que eles se importassem... é claro!
            Mas talvez se importassem. E talvez quisessem, sim, que eu acompanhasse a orgia até o final. Talvez porque ambos desejassem me punir.
            A verdade é que eles subiram. Foram para o próprio quarto e continuaram com a putaria a poucos metros de mim.
            Sentada na cama, atenta a todos os sons que produziam, gelei da cabeça aos pés quando ouvi o barulho indefectível dos trilhos da cortina.
            _ Eu não acredito... _ murmurei. Aquilo costumava indicar que eles estavam abrindo as cortinas à indiscrição dos meus olhos! Mas parecia tão bárbaro que me recusei a acreditar. Disse a mim mesma que deveria ser o contrário: que eles haviam vedado a janela, para que eu não pudesse vê-los.  
            Eu deveria ter ficado sentada. Quieta na escuridão. Ou ter descido, para não sofrer ainda mais do castigo que era estar apartada deles, acompanhando o sexo com outra. Mas me ergui. Caminhei vacilante até a minha janela para ver... horrorizada os três transando na minha frente!
            A garota estava atravessada na cama, de quatro, com a bunda para cima. Fernando estava ajoelhado atrás dela, estocando-a vigorosamente. Henri estava de pé, à sua frente. Segurava seus cabelos com as mãos e atolava o pau na sua boca. Fazia aquilo com total concentração. Mas, de repente, ele sorriu. Ergueu os olhos para Fernando. E os dois voltaram o rosto para a janela.
            Não tinha como fugir. Não tinha sequer, como fechar minhas cortinas. Diferente das outras vezes em se exibiram para mim, transando deliberadamente com a janela aberta, agora eles me fustigavam com a presença da outra. E eu permiti.
            Fiquei de pé, observando a garota se contorcer. Alternar gemidos lânguidos com grunhidos finos.  Retirar rapidamente o pau de Henri da própria boca e gritar:
            _ Fode! Ah, que delícia, fode!
            Acompanhei Fernando se retirar de dentro dela. Alisar uma pica de todo tamanho olhando dentro dos meus olhos. Sair da cama. Segurar o pau de Henri com uma das mãos e beijá-lo carinhosamente na boca. Observei, fascinada, ele desenrolar um preservativo no pau do amante. E depois se posicionar na frente da moça. Os dois olhavam para mim quando voltaram a foder a garota.
            Era mortificante. Não por observar. E sim, por desejar. Eu ardia de desejo!  E queimava de inveja da loira que recebia Henri na bunda... que se erguia sobre os joelhos e ofertava as coxas abertas para Fernando... Que era beijada... lambida... chupada... Que se remexia e gritava que estava gozando!
            Levei os dedos ao grelo. Apoiei umas das mãos no batente da janela e no ápice da mais hedionda humilhação, me masturbei na frente deles. Diante dos olhos deles. Para que eles me vissem... rastejar por eles.
            Olhando para mim, Fernando e Henri continuaram a estocar a moça.  Mas diminuíram o ritmo, nitidamente me esperando. Só quando eu espasmei num orgasmo desonroso, foi que eles se permitiram gozar também.
            Não esperei pelo resto da cena. Me sentindo completamente esgotada, me arrastei até o andar de baixo. Deitei no sofá da sala e dormi.
            Acordei encharcada. De suor. E de tesão.
            O velho Aurélio define a sensação como: Desejo carnal. Excitação. Vontade de fazer sexo. Dentre a miríade de sinônimos possíveis, a única palavra que contemplava meu estado de espírito era: fissura.
            Pois era isso. Uma fissura absurda tomava conta do meu corpo. Mal os primeiros raios da manhã anunciaram o dia, eu me levantei... fissurada!
            A origem daquele furor era óbvia: a situação inusitada que Fernando, eu e Henri havíamos experimentado na noite anterior. Por mais vexatório que tivesse sido, acabou tendo um efeito rebote na minha libido. Meus seios estavam ardendo. Minha buceta estava latejando. Até meu cu exigia alguns bons centímetros de pica atochados dentro dele!
             Bati o martelo. A única coisa decente a fazer era colocar um basta naquela situação!
            Subi. Ainda estiquei os olhos para a janela aberta, mas não os vi na cama. Entretanto, os sons do dia, vindos da casa deles, indicavam que também já haviam se levantado.
         Tomei um banho. Lavei os cabelos. Perfumei-me levemente. Quando me vesti, dispensei calcinha e sutiã. Escolhi uma roupa totalmente despretensiosa: um camisão xadrez e um par de chinelinhos do Mickey.
             Na última ajeitada nos cabelos, os cheiros diferenciados da manhã chegaram às minhas narinas. Da casa dos meus vizinhos eu discernia o frescor de algas e café moído. Sorri. Um deles tomava banho. O outro moía café torrado. Decidi ir primeiro... na padaria!
            Quando finalmente cruzei o portão dos meus vizinhos, meu coração veio parar na boca. Meus joelhos tremiam. Minha barriga esfriou. Da barriga, a linha gélida descia para as pernas e destas para a coluna. Meu corpo, inteiro, anunciava que eu estava à beira de um ataque nervoso.
            Apertei a campanhia. Enquanto esperava, procurava respirar fundo, na tentativa inglória de controlar minha ansiedade. Acho que demorou uma vida. Duas. Três.
            A porta se abriu. Pouca coisa. Mas o suficiente para eu sentir um cheiro devastador de sabonete e xampu de algas... e a imagem deslumbrante de Fernando, usando exclusivamente uma cueca boxer branca, colocar em xeque meu último eletrocardiograma!
            Levantei o saquinho da padaria. E gaguejei:
            _ Eu...t- trouxe o...o... p-pão...            
            Um sorriso glorioso se desenhou naquele rosto dos deuses. Sorriso perfeito, de dentes imaculadamente brancos, disputando brilhantismo com dois radiantes olhos verdes! Com aquele sorriso, Fernando era o mais belo dos celtas sinalizando para o universo que toda forma de amar valia a pena! 
            Ele escancarou a porta. Esticou o braço enorme e me puxou para ele. De uma vez só! Numa acrobacia que nunca entendi, em dois segundos eu estava com as pernas cruzadas nas costas dele, braços em volta do seu pescoço, uma mão segurando minha bunda, a outra empurrando minha boca para junto da dele! Não faço ideia de onde foi parar o pão...
           Fernando me beijou o beijo que me deslocava da terra, me alçando a um universo paralelo, a outra dimensão. Sua língua acariciava docemente a minha... se enrodilhando... chupando... Quando separou a boca, bem devagar, sorriu de novo. Passou o rosto barbeado no meu pescoço. Aplicou nele um beijinho molhado. E sussurrou no meu ouvindo:
            _ Henri está fazendo café...
            Sorri de volta. Eu já não tremia mais. Estava aquecida e feliz, segura nos braços fortes de Fernando.
            Quando ele girou o corpo para o interior da casa, achei que iria me colocar no chão. Mas nem cogitou a hipótese. Entrou me segurando como se eu fosse um bibelô, fechou a porta com o pé e gritou para Henri:
            _ Adivinha o que veio da padaria!
            Cruzamos a sala. Fernando parou comigo na entrada da cozinha. Eu voltei o rosto, para observar Henri, com uma garrafa de café na mão esquerda, me olhar embasbacado!
            A criatura também cheirava a banho. A criatura também usava exclusivamente uma cueca boxer. Para meu desespero... a cueca também era branca!
            _ Vim para o café..._ murmurei, carregando a frase de duplo sentido.
            Quando ele sorriu... quando o mais prestimoso de todos os artistas se quedou diante da magnificência  daquele sorriso... meus chinelinhos do Mickey caíram no chão. Involuntariamente me esfreguei em Fernando... e ele e eu recebemos com uma excitação vertiginosa o augusto sorriso de Henri!
            Henri ondulou até a mesa posta. Colocou a garrafa de café sobre ela... apoiou a mão no espaldar de uma das cadeiras. E como se degustasse um caramelo, movendo-o de um lado para o outro da boca, aceitou o duplo sentido da minha frase:
            _ Não vai servir, Fernando?
      Um arrepio antecipado de prazer percorreu minha coluna. Eu que me divertia imaginando-os como antepastos, agora estava sendo, explicitamente, alçada ao estatuto de refeição.
        Sob os olhos atentos de Henri, Fernando me colocou sobre a mesa. Começou a desabotoar minha roupa. Quando já antevia meus seios, mordeu um pouco os lábios. Olhou para Henri. Um meio sorriso brincava nos lábios dele. Ele conhecia meus seios. Inclusive o gosto deles. Mas também nunca havia me visto daquela forma, sendo exposta à vista, às mãos, à boca. Quando Fernando terminou de desabotoar meu camisão xadrez e meu viu completamente nua, emitiu um gemido de satisfação.
            _ Hum... Vou me acabar de tanto comer!
            Henri não respondeu. O meio sorriso que brincava em seus lábios foi acrescido de um leve erguer da sobrancelha esquerda. Os olhos amarelados se encontraram com os meus... e ele  perguntou:
            _ Quer comer com mamão, Fernando...?
            
... continua na próxima semana!