Rapidinha Free




O   cowboy e a rosa 


            Só de pensar em colocar aquele pau na minha boca, ela se enche d’água. Lembrança de uma experiência erótica, sem dúvida. Mas, primeiro do que tudo: experiência articulada ao sentido do paladar.
            A imagem é nítida. E tenho, com relação a ela, uma memória também relacionada às cores. Em princípio, cores frias: o branco dos lençóis, o azul claro da cueca. Só a cueca, cobrindo o corpo dos deuses, estirado preguiçosamente na minha cama. Entre as cores frias, uma única cor quente: o amarelo do cordão de ouro, sustentando uma pequena medalha de Nossa Senhora Aparecida.
           Atravessado na cama, seminu, convenientemente protegido pela padroeira dos peões, ele era um convite à degustação. Quase um salmo à orgia dos sentidos. Tal qual disse, certa feita, Salomão:ele todo era uma delícia!”
            Vigiada atentamente pelo castanho daqueles olhos, enfiei os dedos pela cueca azul e baixei-a de uma só vez. Sustive seu olhar e me permiti alguns segundos a mais de admiração. Não pela beleza indiscutível do rosto, mas pela serenidade com que ele me observava: diante de tudo o que já havia me dado, eu queria mais.
Não se intimidou. Ao contrário. Sustentou o peso do corpo sobre os cotovelos e se preparou para sentir e observar. Na iminência da duplicação de prazer, me sorria com a languidez dos felinos: com os olhos.
Devolvi o sorriso. E de um golpe só capturei todo o seu pau dentro da minha boca. Estava mole, é claro. Descansava manso, porém soberbo. Tinha a dignidade de um general vitorioso, pois cumprira com brilhantismo a tarefa de me comer por cerca de três horas. Não era muito, é bom que se diga. Houve um dia em que transamos sete horas seguidas, loucos e famintos como sempre fomos, desde quando nos conhecemos.
Com o pau dentro da boca, saboreei a sensação raríssima de tê-lo inteiramente dentro dela. Só mole isso era possível. No seu normal, implicava em uma tarefa engenhosa de contorcionismo, que requeria o relaxamento dos músculos do pescoço e um encaixe reto da boca, de maneira que aquele pau pudesse deslizar garganta abaixo. Mas agora, em repouso, eu podia brincar com ele: trazê-lo de um lado para o outro, roçá-lo nas mucosas internas, enrodilhar a língua pela cabeça e finalmente chupá-lo inteiro, sentindo o gosto híbrido de sal e de doce que emanavam dele.
Supremo deleite: depois de três horas de sexo, lá estava, mais uma vez, o pau dando sinal de vida. Ressurgia das cinzas como fênix, ao simples início da arte milenar do felacio. No compasso da minha pressão, crescera e se avolumara: exatos vinte centímetros de pica, presos entre meus lábios apenas pela cabeça.
“Ocê gosta mesmo de meter, hein muié...?” _ ele disse, entre sério e rindo. Falou desse jeito mesmo. Português xucro, gramática torta, maltratando desbragadamente a língua portuguesa. Mas tinha importância? Nenhuma. Em seus braços, a seu lado, sob ele, ou em cima dele, eu me reconhecia e tomava consciência do que me definia, ontologicamente, como ser. Com ele, eu era livre. E juntos, éramos genialmente humanos. 

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