Memórias de um encontro que não foi...!

   

             Há quanto tempo espero por ele, de pé, na porta da minha casa, olhos ansiosos pela minha chegada...? Não sei mais. Já perdi a conta do tempo. Nosso momento é o agora, no qual ele me olha... extasiado.
           _ Você está linda...
        Volteio o corpo. Abro a roda do vestido rosa, confeccionado exclusivamente para hoje, para ele.
          
               _ Gostou?
                _ ...Ô!
                Em dois passos me acerco dele. Pode até não parecer, porque sou mesmo a rainha dos disfarces, gêmeos ascendente em gêmeos, multifacetada... mas estou ansiosa e, tenho certeza, até mais do que ele. Puxo-o pela camisa, com as duas mãos: para que seu corpo vergue ao meu encontro, rompendo a desproporção das nossas alturas e aproxime da minha, a boca dos meus anseios.
                Ele me beija. Eu o beijo. Conjugação perfeita de línguas volitivas que se procuram, se lambem, se enroscam... e se oferecem, servis, para que uma e outra boca possa chupá-las, sorvê-las, sugá-las... entre uma e outra palavra:
                _ Que saudade, Cara Pálida!
                _ Eu também...
                Meus dedos percorrem seus cabelos. Meu corpo se cola ao dele, talvez porque compreenda que seu lugar é ali, tatuado no dele. E me esfrego, inteira, nele, contra ele, junto dele, saudosa e desejosa de cada milímetro do corpo que me tira do prumo e me afeta o juízo.
           Nem mesmo a malta que buzina, sem poesia e sem romance, me alerta. Quero continuar ali, suspensa em outra dimensão, beijando e sendo beijada, alheia ao mundo inteiro que insiste em girar, à nossa revelia.
          Mas, ele é mais suscetível do que eu. Ri das buzinas, chocando os dentes contra os meus. Mordendo com carinho minha boca, me acordando para o evidente atentado ao pudor que eu estava em vias de cometer.
                _ Doida! _ ele sussurra. Não respondo. Ele tem razão. Apenas sorrio, menina pega numa arte temporã. _ Vamos...
                Vamos de moto. Cruzamos a extensão da cidade sob um por do sol glorioso, montados em seu corcel amarelo, nesses tempos em que os contos revivem sob outras formas: nem ele tão príncipe... nem eu tão donzela.
                Na garagem do seu prédio jogo fora o resto da minha pudicícia, faixa tênue de exclusivo respeito ao trânsito. Em todo o percurso não o provoquei, embora meus seios, intumescidos, gritassem ardendo contra as suas costas.
                Eu o prenso contra a parede, antes do primeiro degrau da escada. E ele... me sorri. Na verdade me convida, braços abertos, praticamente um homem vitruviano, exposto à tempestade da minha... e da nossa volúpia.
                A despeito da minha própria fome, me permito a ordenação disciplinada dos meus sentidos. Em primeiro lugar... o olfato. Meu deus do céu... Esse homem tem um cheiro que me transtorna, que me deixa lassa, que me inebria. Tenho ganas de me embriagar dele, sentindo os feromônios indiscutivelmente poderosos desorganizarem todos os meus sentidos... Por isso, eu o cheiro. Para me perder. 
                _ Você me deixa louca... _ eu digo baixinho, nariz colado em seu pescoço, lambendo as pintinhas de uma orelha que adora meus sussurros. Adiantando o caminho de outro sentido: o paladar. _ sabia...?
                Imiscuo a língua em seu ouvido. Retraço seus contornos... deixo que um sopro de ar quente o arrepie de ponta a cabeça... e mordo, atrevidamente o que se me apresenta como antepasto.
                _ E se eu quiser te comer...? _ eu sussurro um pedido molhado, cheio de saliva e de beijos, na reentrância do seu ouvido.
                _ E se eu quiser te comer...? _ ele me responde com outra pergunta, juntando as mãos na minha bunda, me pressionando contra a pica que, de tão grossa e dura seus jeans não conseguem disfarçar.
                _ E se nós dois quisermos nos comer...? _ tréplica. Meus olhos nos seus, meus braços no seu abraço, meu corpo na posição que lhe apetece: colado ao dele.
                E se...? 

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