O Três - parte I








De todas as perversões sexuais a castidade é a mais perigosa
George Bernard Shaw
           
            Encantamento. A primeira emoção. Eu o vi pela janela do meu escritório e o defini como a um verbete: coisa maravilhosa; delícia.
            Nada além do exato e perfeito: alto, bronzeado, doces cabelos loiros caindo pela testa, torso suado, costas e peito a mostra; a musculatura toda retesada, no esforço para carregar um enorme tampo de cristal.
            A delícia loira estava de mudança para a casa ao lado da minha. Quando eu o vi, ajudando a descarregar o caminhão, achei que todos os deuses do universo eram budistas.
            Surpresa. Outro verbete. Mais uma emoção: prazer inesperado.
            Estacionou pouco à frente do caminhão de mudanças. Desceu de uma caminhonete escura, carroceria coberta por uma lona. Alto, moreno, cabelos castanhos cortados muito curtos, óculos escuros, camiseta de malha retirada pela cabeça, jogada com displicência no banco.
            A surpresa morena correu para ajudar a carregar o tampo de cristal. Mais músculos retesados. Gotículas de suor impregnando a pele dourada de sol. Duas covinhas feiticeiras marcando o alto da bunda, acima dos jeans surrados. Concluí que os deuses do universo só podiam ser fêmeas.
            Desci correndo até a varanda da frente. Estava disposta a me permitir a tortura prazerosa de observá-los. Antes que duas ou mais mocréias viessem reclamar a posse dos meus novos vizinhos, me concedi a diversão de imaginá-los meus. Como repastos.
            O primeiro a perceber que eu os degustava com as vistas foi o moreno.
            Estava andando de costas, ajudando a carregar um sofá. Pareceu momentaneamente incomodado. Olhou em volta. Até que me focalizou por trás dos óculos escuros, modelo aviador.
            Não me fiz de rogada. Sustive o olhar. Evitei o jogo típico que as mulheres fazem quando estão flertando. Ele me dirigiu um sorriso irretocável. Mas baixou levemente a cabeça. Continuou andando de costas, levando o estofado. Corpo aprumado, sorriso ainda estampado no rosto.
            No alto dos quatro lances de escada, esbarrou com o loiro, que vinha saindo de dentro da casa. Um passo ao lado, para permitir a passagem do móvel. A atenção ao sorriso do amigo. Uma conversa breve. E os olhos daquela criatura loira, mais deliciosa que um manjar dos deuses, cravaram em mim.
            Não sorriu. Com as mãos levemente postadas na cintura fina, apenas sustentou o olhar, algo a devolver meu desafio. Não entendi. Apenas suspeitei.
            Mas a suspeita diluiu-se água a baixo quando, pouco depois, ele se muniu de uma garrafa d’água. Postou-se ao lado do próprio portão. Abriu a garrafa e bebeu sofregamente. Depois derramou o líquido nos cabelos. Deixou que rastros de água escorregassem pelo torso perfeito. Passou a mão pelos cabelos lisos. Deixou que dois olhos evidentemente claros se encontrassem com os meus. E me sorriu. Engoli em seco. Sedenta.
            Dali em diante, os dois se exibiram para mim. Ambos me dirigiram sorrisos impossíveis de tradução. Próximos, talvez, de magníficos. Majestosos. Augustos.
            Natural que minhas emoções, que de um a outro foram do encantamento à surpresa, deliciosa surpresa, se encaminhassem para a expectativa: esperança fundada em supostos direitos.
            Os dois se mostravam disponíveis. Os dois executavam para mim a dança ancestral do acasalamento, na qual, em todas as espécies, os machos se pavoneiam para as fêmeas. Os dois se ofereciam. A mensagem era clara: eu poderia escolher qualquer um deles. Escolha: optei pela diversão de ser disputada.
            Decepção. Quantos sinônimos possíveis? Desilusão, desapontamento, desengano, desencanto, contrariedade, tristeza, miragem, ilusão... Não importa. Amarguei cada um dos sinônimos do que podia ser definido por malogro de uma esperança.
            Noite. Estiquei os olhos por entre os vãos da cortina do meu quarto. Garota de sorte! Minha janela indiscreta ficava de frente para a janela igualmente indiscreta do vizinho. Nem cogitei o plural.
            O moreno saiu do banheiro, toalha escura enrolada na cintura fina. O loiro caminhou pelo quarto, enxugando os cabelos lisos. Algumas palavras. Uma risada cansada. Um carinho nos cabelos. E um beijinho na boca!
            Óbvio. Só uma idiota retardada para não perceber a verdade inquestionável que estivera o dia todo diante dos meus olhos: eles eram gays!
            Os vizinhos lindos, perfeitos como dois poemas eram gays!
            Eu os odiei. E odiei a mim. Me senti ridícula, manipulada, tola. Mas também os considerei duas bichas sacanas e muito das safadas, porque eu não sabia e não tinha como saber que eles eram um casal. Eles sabiam. E, deliberadamente, haviam brincado comigo.
            É claro que não saí pela vida, pela vizinhança e muito menos pelas redes sociais destilando meu despeito. Simplesmente preferi evitá-los. Como se fosse possível.
            Não foi possível porque eles se tornaram meu tormento. 

... continua na próxima semana! 


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