O Três - parte II



            Nós nos víamos simplesmente todos os dias. Por uma coincidência cármica qualquer, em todos os benditos ou malfazejos dias, a vida dava um jeito de nos esbarrar. Saindo logo cedo pela manhã. No outro dia, eu me atrasava, esperava o barulho da caminhonete sumir na esquina. Mas, à tarde nos encontrávamos na padaria. Tudo bem, eu pensava: acho outro horário para comprar pão... Mas os encontrava no restaurante.
            Nunca lhes dirigi a palavra. Estava amuada. Confesso: magoada, já que usei a expressão despeito logo acima. Entretanto, a mágoa não vinha da consciência de que eu não tinha a menor chance com nenhum dos dois. A dor e, acima de tudo, a irritação que a mera presença deles me provocava, vinha do fato de que haviam me feito acreditar que estavam flertando comigo! Por isso era doloroso vê-los juntos, tão lindos, tão sexys e tão deliciosamente perfeitos.
            Se eles não me notassem... Se os dois não sinalizassem imediatamente um para o outro quando me viam, a situação seria menos tensa. Mas era o inferno! A onde quer que nos encontrássemos, aquele que me via primeiro indicava ao outro a minha presença.
            Eu me fingia de paisagem. Agia como se meus vizinhos e um pé de alface fossem a mesma coisa. Pura mentira. A consciência da presença deles atormentava, transtornava, chegava a machucar: dos cheiros de banho e café que atravessavam a janela logo pela manhã até as risadas, à noite.
            As primeiras palavras. Vieram no mercadinho da rua de cima.
            Apanhei um vidro de ketchup na gôndola. Não havia nenhuma indicação de preço. O atendente do supermercado estava ali, ao lado, há dois segundos. Voltei-me, querendo saber o valor do condimento. E dei de cara com uma pintura morena, alta, de olhos castanhos, tão clarinhos que pareciam amarelos.
            _ Sabe quant...
            Meu vizinho me encarou em suspense. Parecia prender a respiração, na expectativa da minha frase. Eu já sabia que ele era o mais tímido. Mas, mesmo assim, abriu um sorriso de arrasar quarteirão e me cumprimentou:
            _ Oi... vizinha.
            Quase enfartei. O coração deu um salto no peito, serpenteou, deu duas cambalhotas e parou na garganta. Eu queria matá-lo. Porque aquele tipo de sorriso tinha de ser proibido, em se tratando de homens comprometidos com outros homens!
            Balbuciei um oi meio torto e bati em retirada. Exclusivamente para me chocar com o deus celta que entrava distraído no corredor em que eu fugia.
            Nossas compras se esparramaram pelo chão. Das cestinhas do supermercado saltaram frios, enlatados, xampu, condicionador, absorvente e um número expressivo de preservativos.
            _ D- desculpe..._ mais uma vez eu balbuciei nervosa. Me lancei ao chão, desordenada, tentando ajeitar o estrago. Mas a criatura onírica fez o mesmo. E veio descendo, lindo e loiro, me fitando com dois olhos verdes mal disfarçados pelas lentes dos óculos de grau.
            _ Você é nossa vizinha. _ ele afirmou. Voz grossa. Encorpada. Firme. Adjetivos suficientes para fazerem meus seios se eriçarem e eu me sentir a mulher mais desgraçada da face da terra!
            _ H- hum... hu-hum...
            Com dois passos o deus moreno se acercou de nós. E também se abaixou.
            _ Ele é estabanado. Nunca olha por onde anda. _ me disse, a guisa de desculpas. Não havia sequer um traço de afetação em sua voz. Mas eu me senti ofendida. Mordida. Com ódio da intimidade que a frase demonstrava.
            Não respondi. Sequer olhei no rosto de qualquer um dos dois. Catei minhas coisas, das quais não fazia parte a coleção de preservativos e saí às pressas, tentando andar com dignidade.
            Pouco me importei com os olhos baixos da perfeição morena, na fila do outro caixa. Ele estava ou parecia estar, arrasado. Sequer cogitei a hipótese de que poderia ser por minha causa.
            Despeito. Foi o sentimento que me preencheu, quando receberam a primeira garota.
            Sábado à noite. Meus vizinhos ouviam Bon Jovi. Eu me joguei na cadeira da varanda, para olhar o “movimento da rua”. Estava satisfeita por poder usufruir daquele prazer simples, um dos muitos que se tem no interior, numa cidade cujo maior empregador é uma universidade pública.
            A garota chegou pouco depois das nove. De moto táxi.
            A moto parou bem de frente ao portão dos dois, não deixando dúvidas de que aquele era seu destino. Estreitei os olhos. Delineei uma moça jovem, de cabelos escuros, longos, bunda avantajada e dois peitões de dar inveja. Depois que pagou e devolveu o capacete ao motoqueiro, seguiu rebolando escadaria acima. A moça rebolava tanto que cheguei, maldosamente, a cogitar que fosse manca. Pura inveja.
            Ela tocou a campanhia. Em segundos o deus celta abriu a porta. Com uma mesura, pegou a mão da moça e levou aos lábios. Depois estendeu o braço, convidando-a a entrar.
            Imersa na penumbra da minha varanda, quase bêbada com a metade de uma cerveja long nek, oscilei entre duas possibilidades. A mais provável: tratava-se de uma das alunas da universidade, que havia ido à casa das bichas porque era amiga de uma delas, ou das duas. A menos provável: as bichas eram dois vampiros que iriam sugar o sangue da moça e depois jogá-la na represa. O mais certo: eu estava tendo um ataque de ciúmes. Dos dois. O que, convenhamos, era ridículo.
            Antes que a cerveja subisse na minha cabeça e eu descesse à tentação absurda de ficar plantada na varanda, esperando a garota ir embora, decidi ir para meu quarto e dormir.
            Tormento. Vozes que não eram do Jon Bon Jovi se sobrepunham ao barulho da música, saíam pela janela dos meus vizinhos, entravam pela minha, e atormentavam meu sono.
            Assombro. Quando entendi o significado dos gemidos entrecortados, das expressões abafadas, dos gritinhos intermitentes, me quedei assombrada. Eles estavam transando! Os três!
            Parecia incrível. A última coisa possível de se suceder ali do lado, naquela casa, naquele quarto! Mas era exatamente isso o que estava acontecendo! Ao som do Bon Jovi, meus vizinhos gays estavam comendo a garota da moto!
            Eu me levantei, pasmada. Caminhei a passos inseguros até a janela. Afastei a cortina para o lado, bem devagar. A janela deles estava escancarada, aliás, como sempre. Mas haviam puxado as cortinas. Mesmo assim, os sons que escapavam eram reveladores do que a cortina insistia em ocultar:
            “Lambe meu grelo...” _ a garota suspirava, lânguida, entregue._ Ai... eu não agüento mais gozar... Ah! Ah! Ah!
            “Buceta gostosa... sente... prova isso”
            “Empina a bunda, meu bem, assim... isso...”
            “Chupa o pau dele, quero ver...”
            “Ah, eu vou gozar de novo...! Ah! De novo...!”
            Levei as mãos à boca, embasbacada. Mas eles não eram...? Afinal de contas, eles não eram gays?! E aqueles gemidos que eu também ouvia, vindos do quarto deles, ali, em frente ao meu?! Eram o quê?! Filme pornô?!
            A presença da moça no quarto e o “estado de arte” no qual os três se encontravam, eram adequados para eu me sentir esperançada. Se não isso, pelo menos para me livrar da birra inconveniente que eu nutria pelos dois. Afinal, havia uma chance, e bem concreta, de não terem brincado comigo quando se mudaram! Ao que tudo indicava, existira realmente um flerte entre nós três...
            Mas não me senti esperançada. Eu me senti injuriada! Enfurecida, puta da vida, capaz de assassiná-los se aparecessem na minha frente!



...continua na próxima semana!

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