O Três - parte IV




         
  
                Desprezo. É o que se recebe quando se dá.
            Minha guerra de nervos não passara de um rompante de desejos reprimidos. Dos meus desejos reprimidos. Meus desejos que agora irrompiam como lava, a cada desvio de olhar, a cada cortina fechada, a cada ausência dupla.
            Meus vizinhos não deixavam mais a janela escancarada para a indiscrição dos meus olhos. Raramente esbarravam comigo em qualquer lugar da cidade. Quando isso acontecia, sutilmente se evadiam. A casa, ao lado, parecia inabitada. Sexta feira, à noite, eles desapareciam. Fiquei sozinha, entregue ao remorso, às lágrimas e à insatisfação das minhas vontades. 
            Quando finalmente os vi, espiei-os através de uma fresta da minha janela fechada. Observei-os sorrateira como um bandido, pois não suportava mais a vontade de admirá-los, de lambê-los com os olhos da minha imaginação...
            Eu quis acreditar, com todas as minhas forças, que eles se beijavam para mim. Que Henri corria as mãos pelos cabelos de Fernando, com a urgência e a passionalidade que lhe eram características, porque o amava, sim... Mas também para que eu me deleitasse com as promessas que o gesto continha. Eu quis acreditar que compunham esculturas eróticas diante da janela, exclusivamente para que eu me derretesse de vontade de me juntar a eles e religá-los através do meu próprio corpo. Eu quis acreditar, do fundo da alma, que Henri me percebeu. Que sentiu minha presença atrás da janela e que, por isso, ergueu o rosto em minha direção.
            No suspense do segundo em transe, ele disse algo para Fernando. E seja lá o que disse, falou com tanta dor, que duas grossas lágrimas escaparam de seus olhos. Fernando encostou a testa em seu pescoço. Beijou suas costas carinhosamente. E num único gesto, fechou a janela.
          Eu me joguei na cama, em prantos.
         Chorei tanto, mas tanto, que achei que iria desidratar. Entreguei-me à autocomiseração, à piedade, a um sem fim de justificativas, que foram das mais elaboradas às mais abjetas. Não havia paliativo para mim. Eu tinha sido covarde. Eu jogara com eles tanto quanto jogaram comigo. A diferença é que jamais fingiram não ser um casal. Como também jamais fingiram que o desejo por mim não perpassava a relação dos dois. Eu, sim, havia sido cínica, como Henri me acusara. Cínica e dissimulada. Porque eu era louca por eles. Pelos dois. Mas não admitia.
       Sábado à noite. Quase nove horas. Entregue às lágrimas, dividida entre a autoindulgência e a punição, delineei o som inconfundível do Bon Jovi. Meu estômago esfriou.
       Caí ainda mais fundo no poço da miséria humana. Amarguei de ciúmes, pois aquilo só podia significar uma coisa: mulher. Meus vizinhos, meus príncipes, meus deuses, iriam, de novo, transar com uma mulher que não era eu!
            Em mais um gesto masoquista fiz questão de descer e ficar na varanda.
            A garota chegou pouco depois das nove. Desta vez veio de táxi. Mas não era a mesma. Não soube se senti alívio_ por não terem criado vínculo com a outra_ ou se senti inveja da beleza estonteante da loira que saiu do carro. Olhando para a mulher que, como Henri, não andava, ondulava, me permiti mais minutos de autocomiseração  Foi o próprio Henri que abriu a porta. Só de jeans, com parte da cueca branca aparecendo acima do cós da calça... Sorriu para a moça. Desceu as mãos enormes em sua bunda... Puxou-a para si... e beijou-a na boca ali mesmo, na porta da casa dele.
            Eu quis morrer! Mas... pior que o beijo... pior do que assisti-lo se esfregar com outra... pior que tudo isso, foi perceber que Henri estava se vingando.
       Não precisou muito para entender. No meio do beijo ele abriu os olhos. E olhou diretamente para mim! Quando acabou, deu um tabefe carinhoso na bunda da loira e afastou o corpo para que ela entrasse. Assim que a moça entrou, Henri voltou a cabeça na minha direção. E riu. Não o sorriso augusto, mais bonito e perfeito que a nona sinfonia. Ele dardejou em minha direção um riso cruel. Era uma risada tão atroz que um medo profético se instalou em meu estômago.
            Não tardei por esperar.
          Eles abaixaram a música. E dali mesmo, da minha varanda, eu pude ouvir os sons da luxúria atravessando as paredes e alcançando, certeiros, os meus ouvidos.
           Recebi os barulhos estoicamente. Eu merecia. Aquele desfecho era minha culpa, minha máxima culpa! Se eu estava sozinha e havia outra mulher em meu lugar, a culpa era exclusivamente minha.
       Mas não chorei. Me ergui bravamente e me arrastei para o quarto. Deixei-os “lá embaixo”, se divertindo com a loira, sem o incômodo da minha vigilância. Não que eles se importassem... é claro!
            Mas talvez se importassem. E talvez quisessem, sim, que eu acompanhasse a orgia até o final. Talvez porque ambos desejassem me punir.
            A verdade é que eles subiram. Foram para o próprio quarto e continuaram com a putaria a poucos metros de mim.
            Sentada na cama, atenta a todos os sons que produziam, gelei da cabeça aos pés quando ouvi o barulho indefectível dos trilhos da cortina.
            _ Eu não acredito... _ murmurei. Aquilo costumava indicar que eles estavam abrindo as cortinas à indiscrição dos meus olhos! Mas parecia tão bárbaro que me recusei a acreditar. Disse a mim mesma que deveria ser o contrário: que eles haviam vedado a janela, para que eu não pudesse vê-los.  
            Eu deveria ter ficado sentada. Quieta na escuridão. Ou ter descido, para não sofrer ainda mais do castigo que era estar apartada deles, acompanhando o sexo com outra. Mas me ergui. Caminhei vacilante até a minha janela para ver... horrorizada os três transando na minha frente!
            A garota estava atravessada na cama, de quatro, com a bunda para cima. Fernando estava ajoelhado atrás dela, estocando-a vigorosamente. Henri estava de pé, à sua frente. Segurava seus cabelos com as mãos e atolava o pau na sua boca. Fazia aquilo com total concentração. Mas, de repente, ele sorriu. Ergueu os olhos para Fernando. E os dois voltaram o rosto para a janela.
            Não tinha como fugir. Não tinha sequer, como fechar minhas cortinas. Diferente das outras vezes em se exibiram para mim, transando deliberadamente com a janela aberta, agora eles me fustigavam com a presença da outra. E eu permiti.
            Fiquei de pé, observando a garota se contorcer. Alternar gemidos lânguidos com grunhidos finos.  Retirar rapidamente o pau de Henri da própria boca e gritar:
            _ Fode! Ah, que delícia, fode!
            Acompanhei Fernando se retirar de dentro dela. Alisar uma pica de todo tamanho olhando dentro dos meus olhos. Sair da cama. Segurar o pau de Henri com uma das mãos e beijá-lo carinhosamente na boca. Observei, fascinada, ele desenrolar um preservativo no pau do amante. E depois se posicionar na frente da moça. Os dois olhavam para mim quando voltaram a foder a garota.
            Era mortificante. Não por observar. E sim, por desejar. Eu ardia de desejo!  E queimava de inveja da loira que recebia Henri na bunda... que se erguia sobre os joelhos e ofertava as coxas abertas para Fernando... Que era beijada... lambida... chupada... Que se remexia e gritava que estava gozando!
            Levei os dedos ao grelo. Apoiei umas das mãos no batente da janela e no ápice da mais hedionda humilhação, me masturbei na frente deles. Diante dos olhos deles. Para que eles me vissem... rastejar por eles.
            Olhando para mim, Fernando e Henri continuaram a estocar a moça.  Mas diminuíram o ritmo, nitidamente me esperando. Só quando eu espasmei num orgasmo desonroso, foi que eles se permitiram gozar também.
            Não esperei pelo resto da cena. Me sentindo completamente esgotada, me arrastei até o andar de baixo. Deitei no sofá da sala e dormi.
            Acordei encharcada. De suor. E de tesão.
            O velho Aurélio define a sensação como: Desejo carnal. Excitação. Vontade de fazer sexo. Dentre a miríade de sinônimos possíveis, a única palavra que contemplava meu estado de espírito era: fissura.
            Pois era isso. Uma fissura absurda tomava conta do meu corpo. Mal os primeiros raios da manhã anunciaram o dia, eu me levantei... fissurada!
            A origem daquele furor era óbvia: a situação inusitada que Fernando, eu e Henri havíamos experimentado na noite anterior. Por mais vexatório que tivesse sido, acabou tendo um efeito rebote na minha libido. Meus seios estavam ardendo. Minha buceta estava latejando. Até meu cu exigia alguns bons centímetros de pica atochados dentro dele!
             Bati o martelo. A única coisa decente a fazer era colocar um basta naquela situação!
            Subi. Ainda estiquei os olhos para a janela aberta, mas não os vi na cama. Entretanto, os sons do dia, vindos da casa deles, indicavam que também já haviam se levantado.
         Tomei um banho. Lavei os cabelos. Perfumei-me levemente. Quando me vesti, dispensei calcinha e sutiã. Escolhi uma roupa totalmente despretensiosa: um camisão xadrez e um par de chinelinhos do Mickey.
             Na última ajeitada nos cabelos, os cheiros diferenciados da manhã chegaram às minhas narinas. Da casa dos meus vizinhos eu discernia o frescor de algas e café moído. Sorri. Um deles tomava banho. O outro moía café torrado. Decidi ir primeiro... na padaria!
            Quando finalmente cruzei o portão dos meus vizinhos, meu coração veio parar na boca. Meus joelhos tremiam. Minha barriga esfriou. Da barriga, a linha gélida descia para as pernas e destas para a coluna. Meu corpo, inteiro, anunciava que eu estava à beira de um ataque nervoso.
            Apertei a campanhia. Enquanto esperava, procurava respirar fundo, na tentativa inglória de controlar minha ansiedade. Acho que demorou uma vida. Duas. Três.
            A porta se abriu. Pouca coisa. Mas o suficiente para eu sentir um cheiro devastador de sabonete e xampu de algas... e a imagem deslumbrante de Fernando, usando exclusivamente uma cueca boxer branca, colocar em xeque meu último eletrocardiograma!
            Levantei o saquinho da padaria. E gaguejei:
            _ Eu...t- trouxe o...o... p-pão...            
            Um sorriso glorioso se desenhou naquele rosto dos deuses. Sorriso perfeito, de dentes imaculadamente brancos, disputando brilhantismo com dois radiantes olhos verdes! Com aquele sorriso, Fernando era o mais belo dos celtas sinalizando para o universo que toda forma de amar valia a pena! 
            Ele escancarou a porta. Esticou o braço enorme e me puxou para ele. De uma vez só! Numa acrobacia que nunca entendi, em dois segundos eu estava com as pernas cruzadas nas costas dele, braços em volta do seu pescoço, uma mão segurando minha bunda, a outra empurrando minha boca para junto da dele! Não faço ideia de onde foi parar o pão...
           Fernando me beijou o beijo que me deslocava da terra, me alçando a um universo paralelo, a outra dimensão. Sua língua acariciava docemente a minha... se enrodilhando... chupando... Quando separou a boca, bem devagar, sorriu de novo. Passou o rosto barbeado no meu pescoço. Aplicou nele um beijinho molhado. E sussurrou no meu ouvindo:
            _ Henri está fazendo café...
            Sorri de volta. Eu já não tremia mais. Estava aquecida e feliz, segura nos braços fortes de Fernando.
            Quando ele girou o corpo para o interior da casa, achei que iria me colocar no chão. Mas nem cogitou a hipótese. Entrou me segurando como se eu fosse um bibelô, fechou a porta com o pé e gritou para Henri:
            _ Adivinha o que veio da padaria!
            Cruzamos a sala. Fernando parou comigo na entrada da cozinha. Eu voltei o rosto, para observar Henri, com uma garrafa de café na mão esquerda, me olhar embasbacado!
            A criatura também cheirava a banho. A criatura também usava exclusivamente uma cueca boxer. Para meu desespero... a cueca também era branca!
            _ Vim para o café..._ murmurei, carregando a frase de duplo sentido.
            Quando ele sorriu... quando o mais prestimoso de todos os artistas se quedou diante da magnificência  daquele sorriso... meus chinelinhos do Mickey caíram no chão. Involuntariamente me esfreguei em Fernando... e ele e eu recebemos com uma excitação vertiginosa o augusto sorriso de Henri!
            Henri ondulou até a mesa posta. Colocou a garrafa de café sobre ela... apoiou a mão no espaldar de uma das cadeiras. E como se degustasse um caramelo, movendo-o de um lado para o outro da boca, aceitou o duplo sentido da minha frase:
            _ Não vai servir, Fernando?
      Um arrepio antecipado de prazer percorreu minha coluna. Eu que me divertia imaginando-os como antepastos, agora estava sendo, explicitamente, alçada ao estatuto de refeição.
        Sob os olhos atentos de Henri, Fernando me colocou sobre a mesa. Começou a desabotoar minha roupa. Quando já antevia meus seios, mordeu um pouco os lábios. Olhou para Henri. Um meio sorriso brincava nos lábios dele. Ele conhecia meus seios. Inclusive o gosto deles. Mas também nunca havia me visto daquela forma, sendo exposta à vista, às mãos, à boca. Quando Fernando terminou de desabotoar meu camisão xadrez e meu viu completamente nua, emitiu um gemido de satisfação.
            _ Hum... Vou me acabar de tanto comer!
            Henri não respondeu. O meio sorriso que brincava em seus lábios foi acrescido de um leve erguer da sobrancelha esquerda. Os olhos amarelados se encontraram com os meus... e ele  perguntou:
            _ Quer comer com mamão, Fernando...?
            
... continua na próxima semana!

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